Radar do Açúcar Dancor — 06/10/2026
O mercado começou outubro com forte viés de alta no açúcar internacional, principalmente pela combinação de chuvas no Centro-Sul do Brasil, menor ritmo de moagem e preocupação com a disponibilidade para a entressafra.
📌 Indicador informado por você
CEPEA/ESALQ – Açúcar Cristal Branco/SP:
R$ 122,78/saca de 50 kg, equivalente a US$ 24,62/saca, com queda de 0,48% em 05/10/2026.
Observação: estou tratando R$ 122,78 como o indicador que você informou para a análise desta edição.
📈 O que aconteceu ontem, 05/10
O açúcar bruto em Nova York teve uma sessão bastante forte:
- NY #11: +4,01%, fechando em 20,73 cents/lb, maior nível em aproximadamente 19 meses.
- Londres #5: +3,03%, a US$ 547,60/t.
- O principal combustível da alta foi o temor de que as chuvas no Brasil reduzam ainda mais a produção da safra 2026/27.
- A produção de açúcar do Centro-Sul caiu 41,6% na primeira quinzena de setembro, enquanto a moagem de cana recuou 34,2%.
🇧🇷 Como está a produção brasileira?
Até 15 de setembro, a safra 2026/27 do Centro-Sul acumulava:
- 443,71 milhões de toneladas de cana — queda de 1,5%;
- 26,07 milhões de toneladas de açúcar — queda de 14,4%;
- 22,94 bilhões de litros de etanol — alta de 8,7%.
O ponto mais importante é que não basta olhar somente o preço do açúcar. As usinas estão tendo que lidar com o clima.
As chuvas excessivas dificultam a colheita e a moagem e, além disso, a cana com maior umidade apresenta menor concentração de açúcar, favorecendo a destinação para etanol. A Reuters estima que a produção de açúcar do Centro-Sul pode terminar abaixo das projeções iniciais de 40 milhões de toneladas.
🍶 Açúcar x etanol: um ponto fundamental
Esse é um dos fatores que mais pode mexer com o mercado nos próximos meses.
Quando o etanol fica mais remunerador, a usina pode direcionar mais cana para combustível. Isso reduz a quantidade de açúcar disponível.
E existe uma relação importante com o petróleo: petróleo mais caro tende a melhorar a competitividade do etanol, aumentando o incentivo econômico para o mix alcooleiro.
O USDA também destaca a relação direta entre preços da gasolina, remuneração do etanol e decisão do mix das usinas brasileiras. Para 2026/27, o USDA projeta exportações brasileiras de aproximadamente 33,6 milhões de toneladas, abaixo de anos anteriores devido à menor disponibilidade de açúcar.
🇨🇳 China: pode voltar a comprar mais?
A China continua sendo um comprador muito importante para o açúcar brasileiro.
Porém, os dados mais recentes disponíveis indicam que as importações chinesas ainda estavam abaixo de 2025: nos oito primeiros meses de 2026, a China importou cerca de 2,25 milhões de toneladas, 13,5% abaixo do mesmo período do ano anterior. Agosto, entretanto, mostrou recuperação, com 650 mil toneladas importadas, o maior volume mensal do ano até então.
Para o mercado: se a China acelerar as compras justamente quando Brasil, Índia e Tailândia enfrentam problemas de oferta, o efeito sobre NY e Londres pode ser relevante.
🇮🇳 Índia: atenção redobrada
A Índia está em uma situação interessante: normalmente é uma grande exportadora, mas a disponibilidade interna está mais apertada.
O país chegou a autorizar 1 milhão de toneladas de açúcar bruto com importação sem tarifa, enquanto enfrenta preços domésticos elevados.
Além disso, há preocupação com a produção e com a utilização da cana para etanol. Notícias recentes indicam que o governo indiano estuda restringir a utilização de determinadas matérias-primas da cana para etanol para preservar açúcar para o mercado interno.
Minha leitura: neste momento, a Índia representa mais um risco de menor oferta mundial do que uma ameaça imediata de grandes volumes de exportação.
🚢 Exportações brasileiras
O Brasil continua sendo o grande fornecedor mundial, portanto o mercado acompanha diariamente:
produção → disponibilidade → vendas → navios → portos → embarques.
Em setembro, os embarques brasileiros vinham abaixo do ritmo de 2025 em volume e preço médio, segundo dados da Secex compilados pela Safras.
Com as chuvas, existe ainda um segundo problema: não é somente a cana que pode atrasar; as operações portuárias também podem ser prejudicadas.
🛢️ E o petróleo?
O petróleo é uma variável importante porque influencia diretamente a atratividade do etanol.
No fechamento de 05/10, o Brent estava próximo de US$ 89,57/barril.
Petróleo ↑ → etanol tende a ganhar competitividade → maior incentivo ao etanol → potencialmente menos açúcar.
Não é uma relação automática, mas no Brasil ela merece atenção porque a usina possui justamente essa possibilidade de escolher o destino de parte da cana.
🌾 Entressafra: o que esperar?
A minha leitura para a entrada na entressafra é de mercado mais sensível a qualquer notícia de oferta.
A safra brasileira está entrando na reta final com:
- moagem mais lenta;
- excesso de chuvas;
- produção de açúcar abaixo do ano anterior;
- possibilidade de maior direcionamento para etanol;
- estoques que precisarão abastecer o mercado até a próxima safra.
No mercado mundial, a International Sugar Organization (ISO) projetou para 2026/27 um pequeno déficit de aproximadamente 200 mil toneladas, contra superávit de 1,1 milhão de toneladas em 2025/26. A própria ISO alerta que o El Niño é o principal risco para as projeções de produção.
🎯 Minha leitura para o mercado
Curto prazo: viés altista, principalmente enquanto persistirem as chuvas no Brasil e o mercado continuar revisando para baixo as expectativas de produção.
Entressafra: pode ser mais apertada e volátil. O mercado deverá reagir rapidamente a qualquer notícia sobre estoques, exportações brasileiras, China, Índia, petróleo e câmbio.
Principal risco para alta: uma recuperação rápida do clima e da moagem brasileira, acompanhada de menor demanda internacional.
Principal combustível para nova alta: chuva persistente + redução adicional da produção brasileira + menor exportação da Índia + China voltando às compras.
🔗 Fontes consultadas
- Reuters — Açúcar bruto atinge maior cotação em 19 meses
- Reuters — Clima será determinante para a produção brasileira
- Reuters — Produção do Centro-Sul recuou 41,6% na 1ª quinzena de setembro
- UNICA Data — dados de produção, açúcar, etanol e exportações
- International Sugar Organization — balanço mundial 2026/27
- USDA — projeção para açúcar e exportações do Brasil
- China — evolução das importações de açúcar em 2026
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