ENTRESSAFRA: O QUE PODE ACONTECER?

RADAR DO AÇÚCAR DANCOR — 25/08/2026

O mercado brasileiro de açúcar entrou em uma fase de maior sustentação de preços, mas com volatilidade elevada no exterior. O principal destaque é que o mercado físico paulista está mais apertado justamente enquanto o cenário internacional começa a incorporar novas informações sobre Índia, petróleo, clima e disponibilidade brasileira.

🟢 Indicador CEPEA/ESALQ — São Paulo

24/08/2026: R$ 105,51/saca de 50 kg
US$ 20,47/saca
Alta de 1,09% no dia
Alta acumulada em agosto: 15,31%

O CEPEA confirma que os preços pedidos pelas usinas subiram em razão de oferta mais restrita e valorização do mercado externo. Parte dos compradores, entretanto, diminuiu o ritmo de aquisição, esperando uma possível acomodação dos preços.

Fonte: CEPEA/ESALQ – Açúcar


🔎 O QUE ACONTECEU ONTEM — 24/08

O movimento de ontem foi claramente de fortalecimento do mercado físico brasileiro.

Enquanto o açúcar cristal paulista subiu para R$ 105,51, o mercado internacional de açúcar bruto também permaneceu em patamar elevado: o contrato de outubro do ICE No. 11 fechou em aproximadamente 17,65 cents/lb.

O ponto mais importante é a combinação:

Oferta física mais restrita + mercado internacional valorizado + aproximação da entressafra = maior poder de preço das usinas.

Mas há uma diferença importante: o mercado físico brasileiro está mais firme que o mercado futuro neste momento. Isso significa que o preço pode continuar sustentado mesmo com alguma realização nas bolsas.


🇮🇳 ÍNDIA: O GRANDE FATOR DE VOLATILIDADE

A Índia continua sendo um dos principais assuntos do mercado.

Na segunda-feira, 24/08, a associação das usinas indianas afirmou que não existe uma falta física de açúcar, atribuindo parte da disparada dos preços à especulação e à formação de estoques antes da temporada de festivais.

A Índia produziu aproximadamente 27,9 milhões de toneladas na temporada encerrada em setembro, contra consumo estimado entre 28 e 28,5 milhões de toneladas.

Ao mesmo tempo, cerca de 3 milhões de toneladas foram direcionadas para etanol e aproximadamente 800 mil toneladas foram exportadas. Os estoques iniciais da próxima temporada são estimados em 3,5 milhões de toneladas, contra 5 milhões anteriormente.

Além disso, o governo indiano autorizou 1 milhão de toneladas de importação de açúcar bruto com imposto zero, medida que pode aliviar a disponibilidade interna e limitar novas altas exageradas. Parte desse açúcar deverá vir do Brasil, mas o trânsito marítimo significa que o impacto mais relevante tende a aparecer a partir de outubro.

Fonte: Reuters – mercado de açúcar da Índia

O que isso significa para o Brasil?

Curto prazo: positivo para o açúcar internacional, porque a Índia entra como compradora.

Médio prazo: pode ser negativo se as importações realmente aumentarem a disponibilidade mundial e reduzirem a necessidade de compras adicionais.

Por isso, a Índia hoje é um fator de alta volatilidade, e não simplesmente um fator altista.


🇨🇳 CHINA: IMPORTAÇÃO AINDA É UM PONTO DE ATENÇÃO

A China continua sendo extremamente importante para o açúcar brasileiro.

O cenário oficial chinês para 2026/27 aponta produção próxima de 12,93 milhões de toneladas e importações estimadas em aproximadamente 4,8 milhões de toneladas. O consumo deve ficar em torno de 15,73 milhões de toneladas.

Por outro lado, os dados de comércio indicam que as importações chinesas nos primeiros sete meses de 2026 estavam abaixo do ano anterior, embora julho tenha apresentado forte recuperação, com aproximadamente 470 mil toneladas importadas, o maior volume mensal de 2026 até então.

Em linguagem simples:

Se a China aumentar as compras, principalmente de açúcar brasileiro, teremos:

➡️ maior demanda internacional
➡️ redução da disponibilidade exportável
➡️ suporte ao NY #11
➡️ pressão positiva sobre o açúcar brasileiro

Se a China reduzir as importações, o efeito é contrário.

Por enquanto, eu classificaria a China como fator neutro/levemente positivo, mas que merece acompanhamento.

Fonte: Ministério da Agricultura da China – CASDE


🇧🇷 EXPORTAÇÕES DO BRASIL

O Brasil continua sendo o principal fornecedor do mercado mundial.

O USDA estima para a safra 2026/27 aproximadamente 29,5 milhões de toneladas de açúcar bruto e 4,1 milhões de toneladas de refinado para exportação.

Na temporada 2025/26, o Brasil exportou cerca de 34,1 milhões de toneladas, tendo a China como principal destino, com aproximadamente 4,6 milhões de toneladas.

Isso é importante porque existe uma combinação interessante:

Brasil produz muito → Brasil exporta muito → qualquer redução na produção ou no mix de açúcar tem impacto direto no mercado mundial.

A estimativa da Safras & Mercado citada em março apontava para exportações brasileiras de aproximadamente 29 milhões de toneladas em 2026/27, contra 33,8 milhões na temporada anterior, principalmente devido ao maior direcionamento da cana para etanol.

Fonte: USDA – Brazil Sugar Annual 2026


⛽ PETRÓLEO: POR QUE ELE MEXE COM O AÇÚCAR?

Esse é um dos pontos mais importantes para entender o mercado.

A cana pode virar:

AÇÚCAR ↔ ETANOL

Quando o petróleo sobe, a gasolina tende a ficar mais cara e o etanol ganha competitividade.

Isso pode fazer as usinas brasileiras direcionarem mais cana para etanol e menos para açúcar.

Consequentemente:

Petróleo ↑ → Etanol mais competitivo → mais cana para etanol → menor açúcar → açúcar tende a subir.

Porém, o petróleo caiu forte nesta terça-feira. O Brent chegou a recuar mais de 3%, para perto de US$ 89,21/barril, reduzindo parte do suporte energético ao etanol.

Fonte: Reuters – petróleo Brent

Portanto, hoje o petróleo está funcionando como fator de pressão sobre o açúcar, enquanto a oferta física brasileira continua dando sustentação.


🌱 MIX AÇÚCAR × ETANOL

Esse talvez seja o principal fundamento brasileiro para os próximos meses.

A safra 2026/27 começou com uma tendência mais alcooleira. Projeções divulgadas anteriormente apontavam redução do mix de açúcar de aproximadamente 51% para 48% no Centro-Sul.

Isso significa que, mesmo com uma boa quantidade de cana disponível, não necessariamente teremos a mesma quantidade de açúcar.

Se o etanol continuar competitivo, as usinas podem manter maior parcela da matéria-prima destinada ao combustível.

E aqui está o ponto:

Mais cana não significa automaticamente mais açúcar.

O mercado precisa acompanhar:

  • moagem;
  • ATR;
  • produtividade;
  • mix açúcar/etanol;
  • preço do etanol;
  • preço da gasolina;
  • petróleo;
  • câmbio;
  • margem de exportação.

🌦️ CLIMA: O FATOR QUE PODE MUDAR TUDO

O clima continua sendo um dos principais fatores de risco.

O INMET projetou para agosto temperaturas acima da média em boa parte do Brasil e, no Centro-Sul, condições predominantemente secas, cenário que favorece a colheita e o acúmulo de sacarose na cana.

Entretanto, a chegada do El Niño aumenta a incerteza para os próximos meses.

A Reuters destaca que existe probabilidade superior a 90% de um El Niño muito forte durante o período 2026/27. Para o açúcar, o fenômeno pode trazer efeitos diferentes:

  • Brasil: excesso de chuva pode atrapalhar a colheita;
  • Índia: menor volume de chuvas pode prejudicar a cana;
  • Tailândia: também pode sofrer com menor precipitação.

Fonte: Reuters – El Niño e commodities agrícolas

Para o mercado:

🌧️ Chuva excessiva durante a colheita = altista
☀️ Clima seco e favorável à colheita = baixista
🔥 Calor e seca excessivos = risco de produtividade = altista
❄️ Geada = risco de perda de qualidade/ATR = altista


⏳ ENTRESSAFRA: O QUE PODE ACONTECER?

Estamos entrando gradualmente em uma fase em que o mercado começa a olhar para a menor disponibilidade de açúcar do Centro-Sul.

A entressafra brasileira tradicionalmente reduz a oferta de matéria-prima e aumenta a importância dos estoques disponíveis, das exportações e do açúcar produzido por outras regiões do mundo.

Por isso, a combinação que merece atenção nos próximos meses é:

estoques brasileiros menores + mix mais alcooleiro + exportações firmes + demanda internacional = possibilidade de sustentação dos preços.

Por outro lado, uma eventual melhora da oferta mundial, aumento das exportações indianas ou desaceleração da China pode limitar esse movimento.


📈 MINHA LEITURA PARA O MERCADO

🟢 Fatores ALTISTAS

  • Oferta física mais restrita em São Paulo;
  • CEPEA acima de R$ 105/sc;
  • Mercado internacional ainda próximo de 17,50 cents/lb;
  • Índia entrando no mercado como compradora;
  • Mix brasileiro mais direcionado ao etanol;
  • Risco climático associado ao El Niño;
  • Perspectiva de menor exportação brasileira em 2026/27.

🔴 Fatores BAIXISTAS

  • Índia autorizando 1 milhão de toneladas de importação;
  • Possibilidade de aumento da oferta mundial;
  • China ainda sem forte aceleração estrutural das importações;
  • Petróleo recuando;
  • Compradores brasileiros reduzindo o ritmo de aquisição diante dos preços elevados;
  • Clima atualmente relativamente favorável à colheita no Centro-Sul.

🟡 CONCLUSÃO

O mercado brasileiro está firme, mas não está livre de correções.

O R$ 105,51/sc no CEPEA mostra que a disponibilidade física está apertando e que as usinas ganharam poder de formação de preço. O cenário internacional, entretanto, começa a apresentar resistência devido à possibilidade de maior oferta da Índia e à queda do petróleo.

Minha leitura para os próximos dias é de mercado sustentado e bastante volátil, com atenção especial ao NY #11, comportamento das usinas no físico, mix açúcar/etanol, clima no Centro-Sul e evolução das compras da Índia e da China.

Para a entressafra, o cenário pode ficar mais favorável ao açúcar caso a produção brasileira realmente fique abaixo do potencial e o mix alcooleiro permaneça elevado.


📰 Fontes consultadas

DANCOR CORRETORA DE AÇÚCAR
📱 WhatsApp: (16) 99229-2104
🌐 www.dancorretora.com.br

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